Controle álgico em dor neuropática refratária com uso de canabigerol (CBG)

Paciente do sexo feminino, 57 anos, portadora de obesidade grau III, sedentária e pré-diabética, em acompanhamento ambulatorial por dor neuropática crônica refratária. Possui diagnóstico de neuropatia do glossofaríngeo associado a compressões de raízes nervosas evidenciadas por ressonância magnética. Relata dor mista crônica há aproximadamente 17 anos, acompanhada em ambulatório de dor crônica da UFTM.
A dor iniciou-se como crises lancinantes, de forte intensidade, duração entre 5 e 10 segundos, com frequência inicial de 1 a 3 episódios/dia, ocorrendo 1 a 2 vezes/semana, altamente incapacitantes. Houve progressão gradual, com aumento da frequência, duração e redução dos períodos sem dor. A última exacerbação antes de 2025 foi descrita pela paciente como a “pior dor da vida”.
Diversos tratamentos foram realizados sem sucesso, incluindo AINEs, opioides fracos e fortes, bem como internações hospitalares para analgesia parenteral. Desde 2009, fazia uso de carbamazepina e gabapentina, com seguimento por equipe de neurocirurgia. Em abril de 2025, seu esquema terapêutico incluía oxcarbazepina 600 mg a cada 6h, pregabalina 150 mg a cada 6h, topiramato 100 mg/dia e duloxetina 60 mg/dia, com ajustes conforme tolerância.
Em maio de 2025, apresentou infecção por Herpes Zoster com acometimento do glossofaríngeo, acompanhada de vesículas em tronco e piora significativa da dor, que passou a ocorrer diariamente, em vários episódios ao dia, com início súbito, caráter incapacitante, perda de consciência e liberação de esfíncteres. O quadro levou ao aumento do consumo das medicações habituais e efeitos colaterais relevantes.
Diante da refratariedade e do agravamento clínico, optou-se pela introdução de canabigerol (CBG), iniciando-se após aproximadamente 20 dias do quadro agudo. Foi prescrita dose inicial de 45 mg/dia. Nas primeiras 48h, a dor persistiu, mas houve redução progressiva da frequência dos episódios. No 8º dia de uso, a paciente apresentou remissão completa da dor, com ajuste da dose para 60 mg/dia. Atualmente, encontra-se em uso de 15 mg duas vezes ao dia, em processo de redução gradual das demais medicações, mantendo remissão sustentada da dor.
Este caso ilustra a refratariedade de algumas formas de dor neuropática aos tratamentos convencionais, incluindo anticonvulsivantes, antidepressivos e opioides. A associação de infecção aguda por Herpes Zoster intensificou o quadro, reforçando a limitação terapêutica. O uso de CBG mostrou-se eficaz, com resposta clínica significativa e remissão sustentada da dor, além de potencial para redução da polifarmácia.
O canabigerol, precursor biossintético de outros fitocanabinoides como CBD e THC, atua sobre múltiplos receptores (CB1, CB2, adrenérgicos e serotoninérgicos), possuindo propriedades analgésicas e anti-inflamatórias distintas das do CBD. Este mecanismo pode justificar a eficácia observada em casos refratários.
Conclusão
O CBG demonstrou eficácia e segurança no controle de dor neuropática grave, refratária a múltiplos tratamentos, com remissão sustentada e possibilidade de redução da carga medicamentosa. Mais estudos são necessários para consolidar seu papel terapêutico, mas este caso reforça seu potencial como opção em cenários de difícil manejo clínico.
