Quem começa a pesquisar sobre cannabis medicinal pode ter uma preocupação bastante compreensível: canabidiol vicia?
A resposta, considerando especificamente o canabidiol (CBD) puro, é que as evidências disponíveis não indicam potencial de abuso ou dependência semelhante ao observado com substâncias conhecidas por causar dependência.
A Organização Mundial da Saúde (OMS), após avaliação do seu Comitê de Especialistas em Dependência de Drogas, concluiu que preparações consideradas de CBD puro não apresentam potencial de abuso ou dependência que justifique seu controle internacional como substância isolada.
Isso não significa, porém, que qualquer produto derivado da Cannabis tenha as mesmas características ou que o CBD possa ser utilizado sem cuidados.
Para entender essa diferença, precisamos primeiro separar três conceitos: CBD, THC e produtos à base de Cannabis.
O que é canabidiol?
O canabidiol, conhecido pela sigla CBD, é um dos diversos canabinoides encontrados na Cannabis.
Ele ganhou espaço na pesquisa científica e na medicina principalmente por suas características farmacológicas diferentes das apresentadas pelo THC (tetrahidrocanabinol).
CBD e THC podem vir da mesma planta, mas isso não significa que provoquem os mesmos efeitos no organismo.
Se você está começando a conhecer o assunto, confira também o guia da Vikura sobre o que é CBD e para que serve.
Afinal, canabidiol vicia?
Quando estamos falando de CBD puro, as evidências disponíveis não apontam para um potencial relevante de abuso ou dependência.
Em sua revisão sobre o canabidiol, a OMS informou não haver relatos de casos de abuso ou dependência relacionados ao uso de CBD puro nos dados avaliados pelo comitê. A organização também concluiu que as informações disponíveis não justificavam colocar preparações consideradas de CBD puro sob controle internacional de drogas.
É importante prestar atenção à expressão “CBD puro”.
Isso porque CBD, THC e um produto contendo diferentes derivados da Cannabis não são necessariamente equivalentes.
CBD e THC são a mesma coisa?
Não.
Essa diferença é essencial para entender por que a pergunta “canabidiol vicia?” não deve ser respondida simplesmente com informações sobre a Cannabis de maneira geral.
O THC é o principal componente intoxicante da Cannabis e apresenta características diferentes das do CBD. A própria OMS diferencia o THC como principal constituinte psicoativo da Cannabis, enquanto o CBD apresenta outro perfil farmacológico.
Por isso, estudos sobre dependência relacionada ao uso de Cannabis rica em THC não devem ser automaticamente interpretados como evidência de que CBD isolado também provoque dependência.
Quer compreender melhor essas diferenças? A Vikura possui um conteúdo específico sobre óleo de THC, suas propriedades e utilização medicinal.
Se o CBD não vicia, por que existe tanta confusão?
Parte dessa dúvida pode surgir porque os termos “Cannabis”, “CBD”, “THC”, “óleo de Cannabis” e “óleo de canabidiol” são frequentemente usados como se significassem exatamente a mesma coisa.
Não significam.
Um produto à base de Cannabis pode apresentar diferentes concentrações e combinações de canabinoides.
Por isso, duas perguntas diferentes precisam ser separadas:
O CBD puro apresenta potencial de dependência?
As evidências avaliadas pela OMS não apontam para potencial relevante de abuso ou dependência.
Qualquer produto derivado da Cannabis apresenta exatamente esse mesmo perfil?
Não necessariamente. É preciso conhecer sua composição, incluindo a presença e a concentração de THC e de outros componentes.
Parar de tomar canabidiol causa abstinência?
Essa pergunta também já foi investigada.
Um ensaio clínico randomizado avaliou 30 voluntários saudáveis que receberam uma formulação farmacêutica altamente purificada de CBD durante quatro semanas. Posteriormente, parte dos participantes interrompeu o CBD e passou a receber placebo.
Os pesquisadores não encontraram evidências de síndrome de abstinência após a interrupção abrupta do tratamento de curto prazo com CBD.
Esse resultado é relevante, mas precisa ser interpretado dentro dos limites do estudo: eram voluntários saudáveis, o grupo era pequeno e o período avaliado foi relativamente curto.
Portanto, esse trabalho não permite afirmar que toda pessoa, utilizando qualquer produto, dose ou duração de tratamento, terá necessariamente a mesma experiência.
Dependência e tolerância são a mesma coisa?
Não.
Embora os termos possam aparecer juntos, eles representam conceitos diferentes.
De maneira simplificada, tolerância ocorre quando a resposta do organismo a determinada substância diminui após exposições repetidas, podendo exigir mudanças na quantidade utilizada para produzir determinados efeitos.
Dependência física, por sua vez, está relacionada à adaptação do organismo à presença da substância e pode estar associada ao aparecimento de sintomas após sua interrupção.
Já o transtorno por uso de substâncias envolve um conjunto mais amplo de comportamentos e consequências relacionados ao consumo.
A avaliação da OMS sobre CBD analisou justamente questões relacionadas ao potencial de dependência e abuso e não encontrou evidências que justificassem o controle internacional do CBD puro nesses termos.
Canabidiol dá barato?
Outra dúvida relacionada à dependência é se o canabidiol dá barato.
CBD e THC novamente precisam ser diferenciados.
O CBD puro não apresenta o perfil intoxicante característico do THC. A OMS concluiu que preparações consideradas de CBD puro não apresentam as propriedades associadas ao potencial de abuso e dependência observado em outras substâncias.
Isso, porém, não significa que CBD seja uma substância completamente desprovida de efeitos sobre o organismo.
Se não vicia, o CBD é totalmente seguro?
Não é possível chegar a essa conclusão.
Ausência de evidência relevante de dependência não significa ausência de efeitos adversos ou riscos.
Uma revisão sistemática de ensaios clínicos randomizados publicada em 2022 analisou 12 estudos e 745 participantes. Entre os eventos adversos mais relatados estavam sintomas gastrointestinais, sonolência, redução do apetite e alterações de enzimas hepáticas. Os autores também destacaram a possibilidade de interações medicamentosas, especialmente em determinados contextos clínicos.
Outra revisão sistemática identificou diarreia, sonolência e sedação entre os eventos associados ao CBD nos ensaios avaliados e ressaltou a necessidade de atenção às interações com outros medicamentos.
Portanto, a pergunta não deveria ser apenas “CBD vicia?”.
Também é importante perguntar:
O CBD é adequado para o meu quadro, considerando minha saúde, outros medicamentos e os potenciais benefícios e riscos?
Essa resposta exige avaliação individualizada.
Posso usar canabidiol por conta própria?
O fato de o CBD puro não apresentar potencial relevante de dependência não torna a automedicação uma escolha adequada.
O uso medicinal envolve fatores como composição do produto, concentração dos canabinoides, dose, medicamentos utilizados simultaneamente, condições clínicas existentes e resposta individual.
Também existem diferentes formas de interação dos canabinoides com o organismo. Para compreender melhor essa relação, veja o conteúdo da Vikura sobre como funciona o sistema endocanabinoide.
A avaliação profissional permite analisar essas variáveis e discutir o que as evidências científicas disponíveis realmente mostram para determinada condição.
Óleo de canabidiol vicia?
A resposta depende, antes de tudo, do que existe dentro desse produto.
Quando falamos especificamente de CBD puro, as evidências atuais não indicam potencial relevante de abuso ou dependência.
Entretanto, “óleo de canabidiol” pode ser uma denominação utilizada para formulações com composições diferentes.
Por isso, antes de tirar conclusões sobre seus efeitos, é importante verificar informações como concentração de CBD, presença de THC e composição do produto.
Essa distinção também ajuda a evitar um erro comum: generalizar conclusões científicas sobre CBD isolado para qualquer produto derivado da Cannabis.
Canabidiol causa dependência psicológica?
Os dados disponíveis sobre CBD puro não demonstram um perfil de abuso ou dependência que tenha levado a OMS a recomendar seu controle internacional como droga.
Entretanto, questões relacionadas ao uso de medicamentos não devem ser analisadas apenas pela existência ou não de dependência.
Se uma pessoa percebe mudanças no padrão de uso de qualquer substância, utiliza quantidades diferentes das prescritas ou tem dificuldade para seguir o tratamento conforme orientação, vale conversar com o profissional responsável.
Então, canabidiol vicia ou não?
Considerando as evidências disponíveis, o CBD puro não apresenta um potencial relevante de abuso ou dependência semelhante ao observado em substâncias conhecidas por causar dependência. A avaliação realizada pela OMS sustenta essa diferenciação.
Um estudo clínico de curta duração também não encontrou evidências de síndrome de abstinência após a interrupção abrupta de CBD altamente purificado em voluntários saudáveis.
Mas isso não significa que:
- qualquer produto de Cannabis seja equivalente ao CBD puro;
- produtos contendo THC tenham necessariamente o mesmo perfil;
- CBD seja livre de efeitos adversos;
- não existam interações medicamentosas;
- o uso deva ser iniciado sem avaliação profissional.
Essa diferença é fundamental para conversar sobre cannabis medicinal de maneira responsável.
Tem interesse em cannabis medicinal? Informação é o primeiro passo
Se a preocupação com dependência é uma das razões pelas quais você ainda tem dúvidas sobre cannabis medicinal, conversar com um profissional habilitado pode ajudar a compreender melhor o assunto.
Durante uma consulta com médico de cannabis medicinal, o profissional pode avaliar seu histórico de saúde, medicamentos utilizados, sintomas e objetivos terapêuticos, além de discutir as evidências disponíveis para o seu caso.
A consulta não significa que necessariamente haverá uma prescrição. Ela é o momento para entender se a cannabis medicinal pode ser considerada, quais são seus potenciais benefícios e riscos e quais alternativas estão disponíveis.
Quero conversar com um médico sobre cannabis medicinal
Perguntas frequentes
CBD causa dependência?
As avaliações disponíveis sobre CBD puro não indicam potencial relevante de abuso ou dependência. A OMS recomendou que preparações consideradas de CBD puro não fossem submetidas ao controle internacional de drogas nesses termos.
Canabidiol causa abstinência?
Um pequeno ensaio clínico com voluntários saudáveis não encontrou evidências de síndrome de abstinência após a interrupção abrupta de CBD altamente purificado após tratamento de curto prazo. Esse resultado não deve ser generalizado para todos os contextos de uso.
Canabidiol dá barato?
CBD puro não apresenta o perfil intoxicante característico do THC. É importante, entretanto, verificar a composição de produtos à base de Cannabis.
Canabidiol tem efeitos colaterais?
Pode ter. Estudos clínicos relatam eventos adversos como diarreia, sonolência, sedação, redução do apetite e, em determinados contextos, alterações de enzimas hepáticas. Também podem ocorrer interações com outros medicamentos.
CBD e THC são iguais?
Não. São canabinoides diferentes e apresentam perfis farmacológicos distintos. O THC é o principal componente intoxicante da Cannabis, enquanto o CBD não apresenta esse mesmo perfil.





