Se você utiliza ou está considerando um tratamento com canabidiol (CBD), talvez já tenha encontrado uma dúvida importante: canabidiol faz mal para o fígado?
O CBD pode provocar alterações nas enzimas do fígado e, em determinadas circunstâncias, estar associado à lesão hepática. Isso não significa, porém, que todas as pessoas que utilizam canabidiol terão problemas no fígado.
O risco pode variar de acordo com fatores como quantidade utilizada, outros medicamentos em uso, condições de saúde e características individuais.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Internal Medicine encontrou maior probabilidade de elevação de enzimas hepáticas e lesão hepática induzida por medicamento entre participantes que utilizaram CBD em comparação ao placebo. Doses elevadas e uso concomitante de medicamentos antiepilépticos apareceram como fatores de risco importantes.
Por isso, a pergunta não deve ser apenas se CBD faz mal para o fígado, mas em quais circunstâncias esse risco pode aumentar e quando o acompanhamento da função hepática pode ser necessário.
O que o fígado tem a ver com o canabidiol?
O fígado participa do metabolismo de inúmeras substâncias que entram no organismo, incluindo medicamentos.
O canabidiol também passa por metabolismo hepático e pode participar de interações com enzimas responsáveis pelo processamento de outros medicamentos.
Isso ajuda a explicar por que o histórico clínico e a lista completa de medicamentos utilizados são informações importantes antes de iniciar um tratamento com CBD.
Também significa que “natural” não deve ser interpretado como sinônimo de “sem efeitos adversos”.
O canabidiol é uma substância farmacologicamente ativa e precisa ser avaliado como tal.
Canabidiol pode aumentar as enzimas do fígado?
Sim.
Uma das principais alterações observadas nos estudos clínicos com CBD é a elevação de enzimas hepáticas, especialmente a alanina aminotransferase (ALT) e a aspartato aminotransferase (AST).
Essas enzimas podem ser avaliadas por exames de sangue e ajudam o profissional de saúde a investigar alterações hepáticas.
Uma meta-análise que reuniu ensaios clínicos encontrou maior probabilidade de elevação das enzimas hepáticas entre participantes que receberam CBD. Entre 1.533 participantes tratados com canabidiol nos estudos analisados, a proporção agrupada de elevações das enzimas hepáticas foi de aproximadamente 7,4%.
Mas esse número precisa ser interpretado com contexto.
Os estudos utilizaram diferentes quantidades de CBD, envolveram populações distintas e, em vários casos, incluíram pessoas que também utilizavam outros medicamentos.
Portanto, não significa que 7,4% de qualquer pessoa que utilize qualquer óleo de CBD terá alteração hepática.
CBD pode causar lesão no fígado?
Existe evidência de que o CBD pode estar associado à lesão hepática induzida por medicamento, conhecida pela sigla DILI (drug-induced liver injury).
Na mesma meta-análise, o uso de CBD esteve associado a maior probabilidade de DILI em comparação ao placebo. A proporção agrupada entre os participantes tratados com CBD foi de aproximadamente 3%. Os pesquisadores não encontraram casos de lesão hepática grave nos estudos incluídos.
Um dado importante é que o risco observado foi maior com doses elevadas de CBD, definidas na análise como 1.000 mg ou mais por dia ou 20 mg/kg/dia ou mais, e com o uso concomitante de medicamentos antiepilépticos.
Isso reforça que o risco hepático precisa ser analisado dentro do contexto de utilização.
Só doses altas de canabidiol afetam o fígado?
Essa questão ganhou novas evidências recentemente.
A meta-análise de 2023 não encontrou casos de lesão hepática em adultos que utilizaram menos de 300 mg de CBD por dia nos estudos avaliados.
Entretanto, um ensaio clínico randomizado conduzido por pesquisadores da FDA trouxe uma informação adicional.
O estudo avaliou 201 adultos saudáveis. Entre os participantes que receberam CBD diariamente durante quatro semanas, 5,6% apresentaram níveis de ALT superiores a três vezes o limite superior da normalidade. Nenhum participante do grupo placebo apresentou essa alteração.
Esses resultados mostram por que não é adequado concluir que somente quantidades extremamente altas oferecem algum risco hepático.
Também não significam que pequenas quantidades necessariamente causarão dano.
A resposta individual pode variar, e ainda existem questões científicas importantes sobre dose, duração do uso e susceptibilidade individual.
Canabidiol pode causar hepatite?
Quando se fala em “hepatite”, é importante lembrar que o termo significa inflamação do fígado e pode ter diversas causas.
No contexto do CBD, a preocupação estudada é principalmente com alterações de enzimas hepáticas e lesão hepática induzida por substância ou medicamento.
Isso é diferente de afirmar que o canabidiol causa hepatites virais, por exemplo.
O acompanhamento laboratorial permite identificar alterações hepáticas que muitas vezes podem aparecer antes de sintomas evidentes.
A FDA destaca justamente que alterações relacionadas ao CBD podem ser inicialmente identificadas por exames de sangue.
Quais pessoas podem apresentar maior risco?
O risco não parece ser igual para todos.
A literatura científica aponta alguns fatores que merecem atenção especial.
Quantidades elevadas de CBD
A relação entre dose e risco aparece de maneira consistente na literatura. A meta-análise sobre hepatotoxicidade identificou doses elevadas como fator de risco para alterações hepáticas.
Isso significa que usar mais CBD não deve ser interpretado automaticamente como uma forma de obter melhores resultados.
Uso de outros medicamentos
Outro fator importante são as interações medicamentosas.
O CBD pode interferir em vias envolvidas no metabolismo de diferentes medicamentos, enquanto algumas combinações podem aumentar a ocorrência de determinados efeitos adversos.
É por isso que informar todos os medicamentos utilizados ao profissional responsável é uma parte importante da avaliação.
Uso de valproato
A associação entre CBD e valproato ou ácido valproico merece atenção especial.
Estudos realizados principalmente no contexto de epilepsias identificaram maior ocorrência de alterações de ALT e AST entre pessoas que utilizavam CBD concomitantemente ao valproato.
Isso não significa que todo paciente que utiliza valproato desenvolverá lesão hepática ao usar CBD.
Significa que a combinação exige atenção e monitoramento apropriados.
CBD e clobazam fazem mal para o fígado?
Clobazam é outro medicamento frequentemente mencionado quando discutimos interações com CBD, principalmente em estudos relacionados à epilepsia.
Entretanto, é importante não confundir as interações.
Revisões de ensaios clínicos relacionaram as elevações de transaminases principalmente ao uso concomitante de valproato, enquanto clobazam aparece de maneira mais importante em interações relacionadas à sedação e sonolência.
Essa diferença mostra por que não é adequado tratar todas as interações medicamentosas do canabidiol da mesma maneira.
Quem tem gordura no fígado pode tomar canabidiol?
Essa resposta precisa ser individualizada.
Esteatose hepática — popularmente conhecida como “gordura no fígado” — pode apresentar diferentes graus e estar associada a diferentes alterações metabólicas e hepáticas.
A existência de uma condição hepática prévia é uma informação que deve ser apresentada ao profissional antes de iniciar CBD.
Não é adequado concluir que pessoas com esteatose podem ou não podem utilizar canabidiol com base apenas no diagnóstico.
O profissional pode avaliar histórico clínico, exames, outros medicamentos e características do produto antes de determinar os cuidados necessários.
Quem tem problema no fígado pode usar CBD?
Da mesma forma, não existe uma resposta única para todas as doenças hepáticas.
“Problema no fígado” pode significar condições completamente diferentes, com graus distintos de comprometimento da função hepática.
Pessoas com doença hepática prévia merecem avaliação individualizada antes de utilizar CBD.
Isso é especialmente importante porque alterações nas enzimas hepáticas podem estar relacionadas à própria doença, a outros medicamentos ou a diferentes fatores.
Quais exames avaliam o fígado durante o uso de CBD?
Dependendo do contexto clínico, o profissional pode solicitar exames de sangue para avaliar a função e possíveis alterações hepáticas.
Entre os marcadores frequentemente considerados estão:
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ALT;
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AST;
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bilirrubina;
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fosfatase alcalina;
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outros exames conforme o contexto clínico.
A necessidade e a frequência do monitoramento não são iguais para todas as pessoas.
No caso do canabidiol farmacêutico aprovado pela FDA para determinadas epilepsias, por exemplo, a bula recomenda avaliar transaminases e bilirrubina antes do início do tratamento e realizar monitoramento durante o uso, especialmente diante de fatores de risco.
Isso não significa que esse protocolo específico deva ser automaticamente aplicado a qualquer produto ou paciente. O acompanhamento deve considerar a indicação, produto, quantidade e condições individuais.
Quais sintomas de problemas no fígado merecem atenção?
Alterações hepáticas podem ser identificadas em exames antes mesmo de sintomas aparecerem.
Ainda assim, sinais como pele ou olhos amarelados, urina escura, náuseas persistentes, dor abdominal importante, perda de apetite incomum ou cansaço intenso justificam avaliação profissional, especialmente quando aparecem depois do início ou alteração de um tratamento.
Não tente descobrir sozinho se o sintoma foi causado pelo CBD ou por outro medicamento.
Procure avaliação profissional.
Preciso fazer exame do fígado antes de tomar canabidiol?
Não existe uma regra única que determine o mesmo protocolo de exames para toda pessoa que utiliza CBD.
A necessidade de avaliação laboratorial depende de fatores como:
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quantidade de CBD;
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duração prevista do tratamento;
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medicamentos utilizados simultaneamente;
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histórico de doença hepática;
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resultados prévios de exames;
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idade e condições clínicas;
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produto e indicação.
Uma revisão clínica sobre hepatotoxicidade associada ao CBD recomenda atenção especial ao monitoramento de pessoas com maior risco.
Por isso, a decisão deve ser tomada pelo profissional responsável.
Canabidiol faz mal para os rins?
Fígado e rins exercem funções diferentes no organismo.
As evidências de alterações de enzimas hepáticas relacionadas ao CBD não devem ser automaticamente utilizadas para afirmar que o canabidiol causa lesão renal.
Se uma pessoa possui doença renal, utiliza diversos medicamentos ou apresenta alterações em exames, essa condição também precisa fazer parte da avaliação antes de iniciar cannabis medicinal.
Mas essa é uma pergunta diferente da segurança hepática do CBD e exige análise específica.
Óleo de CBD pode fazer mal ao fígado?
A expressão “óleo de CBD” abrange produtos com composições muito diferentes.
Eles podem variar em:
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concentração de CBD;
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presença de THC;
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outros canabinoides;
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veículo utilizado;
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qualidade e procedência;
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quantidade efetivamente administrada.
Por isso, não é possível avaliar o risco apenas pela palavra “óleo”.
É necessário saber qual produto está sendo utilizado e quanto CBD ele fornece.
Também é importante escolher produtos com procedência e composição verificáveis.
Como reduzir riscos durante o tratamento com CBD?
O primeiro passo é evitar a automedicação.
Antes de iniciar um tratamento com canabidiol:
Informe todos os medicamentos que utiliza. Isso inclui medicamentos prescritos, suplementos e outros produtos à base de cannabis.
Conte ao profissional se possui doença hepática. Histórico de alterações de ALT, AST ou outras condições relacionadas ao fígado pode ser relevante.
Não aumente a quantidade por conta própria. Quantidades maiores não significam necessariamente melhores resultados e podem modificar o perfil de segurança.
Faça os exames solicitados. Quando o profissional considerar necessário, o monitoramento laboratorial pode identificar alterações precocemente.
Utilize produtos com procedência conhecida. Saber a concentração real de CBD é importante também para compreender a quantidade utilizada.
Afinal, canabidiol faz mal para o fígado?
O canabidiol pode alterar enzimas hepáticas e, em algumas circunstâncias, estar associado à lesão do fígado. Mas isso não significa que todas as pessoas que utilizam CBD terão problemas hepáticos.
A melhor evidência disponível mostra que o risco varia e pode ser maior com quantidades elevadas e determinadas combinações medicamentosas, especialmente com valproato.
Estudos mais recentes também mostram que alterações hepáticas podem ocorrer em alguns adultos saudáveis, reforçando a importância de não tratar CBD como uma substância completamente isenta de riscos.
Por outro lado, esses dados também não justificam afirmar que “CBD destrói o fígado” ou que qualquer uso inevitavelmente provocará lesão.
Se você utiliza outros medicamentos, possui alterações hepáticas ou está considerando iniciar cannabis medicinal, converse com um profissional habilitado. Ele poderá avaliar riscos, possíveis interações e a necessidade de monitoramento de acordo com seu caso.
Informação baseada em evidências ajuda você a participar das decisões sobre sua saúde com mais segurança.
Perguntas frequentes sobre canabidiol e fígado
CBD sobrecarrega o fígado?
O CBD é metabolizado pelo organismo e pode provocar elevação de enzimas hepáticas em determinadas pessoas. Entretanto, “sobrecarregar” é um termo pouco específico. O risco depende de quantidade, medicamentos concomitantes e fatores individuais.
Canabidiol aumenta TGO e TGP?
Pode. AST (TGO) e ALT (TGP) são enzimas utilizadas na avaliação hepática, e elevações foram observadas em estudos clínicos com CBD. O risco foi maior em alguns contextos, incluindo doses elevadas e uso concomitante de valproato.
CBD pode causar lesão hepática?
Sim, existem casos de elevação clinicamente relevante de enzimas e lesão hepática induzida por medicamento associados ao CBD. O risco, entretanto, não é igual para todas as pessoas.
Quem tem gordura no fígado pode usar CBD?
A presença de esteatose precisa ser considerada na avaliação individual. Não é adequado determinar a segurança do CBD apenas com base no diagnóstico de “gordura no fígado”.
Canabidiol com ácido valproico faz mal ao fígado?
Estudos encontraram maior ocorrência de elevação de enzimas hepáticas em pessoas que utilizavam CBD concomitantemente ao valproato. Por isso, essa combinação merece acompanhamento profissional e monitoramento apropriado.
Precisa fazer exame do fígado para tomar CBD?
Nem todas as pessoas necessariamente seguirão o mesmo protocolo. A necessidade de exames depende da quantidade utilizada, medicamentos concomitantes, histórico hepático e outros fatores avaliados pelo profissional.
Alteração das enzimas do fígado significa lesão grave?
Não necessariamente. Alterações laboratoriais precisam ser interpretadas considerando intensidade, outros exames, sintomas e contexto clínico. Nos estudos reunidos pela meta-análise de 2023, não foram relatados casos de DILI grave.




